A queda de Ícaro
Uma armadilha invisível, uma fuga de bicicleta, uma floresta misteriosa e um segredo grande demais para se guardar. Entre figurinhas, risos e pesadelos, nasce uma história assustadora. Que tal encarar "A queda de Ícaro" para descobrir o que aconteceu quando o tempo quase parou?
Narrativa vencedora do 4º Prêmio Literário Sesc Criança, na categoria Juvenil, "A queda de Ícaro" está prestes a chegar ao público com uma trama instigante e repleta de surpresas. Escrito por Bruno Ricardo Gessner, com ilustrações de Diogo Medeiros e coordenação editorial de André Soltau e Gika Voigt, o livro foi editado e publicado pela Editora Sesc e será lançado no dia 13 de setembro, no Sesc Palhoça, como parte da programação comemorativa dos 79 anos do Sesc.
Na ocasião, também serão lançados outros dois títulos premiados: "João Menino", de Inara Moraes, ilustrado por Elma — obra vencedora na categoria Infantil —, e "As aventuras de Pinto Júnior", de Arthur Crespi Castro (11 anos), ilustrado por Lemmmas, que recebeu Menção Honrosa. O evento contará com a presença dos autores, ilustradores e da equipe editorial.
A seguir, você confere entrevistas exclusivas que revelam os desafios, inspirações e escolhas por trás da criação de "A queda de Ícaro", um livro que promete fisgar leitores de todas as idades com uma boa dose de suspense e emoção.
ENTREVISTAS
Conversa com Bruno Ricardo Gessner - autor
Nasceu em Jaraguá do Sul é tradutor e pesquisador em tradução. É formado em Letras - Francês e Mestrando em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina. O amor que tem pela literatura só é comparado ao que sente por sua esposa, Caroline. "A Queda de Ícaro" é sua primeira publicação.
- Como essa história começou a nascer dentro de você? Houve alguma lembrança ou vivência que serviu de ponto de partida?
“A queda de Ícaro” nasceu por uma confluência de experiências próprias e referências que me marcaram. Passei a infância subindo em pés de goiaba e andando de bicicleta pelas ruas do bairro onde cresci, e nos dias de chuva ficava em casa imerso em meus gibis e assistindo filmes de aventura. Escrever a história de Ícaro foi uma maneira saudosista de brincar com lembranças de um passado em que as coisas eram mais simples e o tempo passava mais devagar.
- Embora seja voltada ao público infantojuvenil, a narrativa resgata memórias afetivas que também emocionam os adultos. Como você enxerga essa conexão entre gerações — pais, mães e filhos se identificando, cada um à sua maneira, com a mesma história?
A infância é uma época de inocência. Até mesmo os perigos, como aqueles enfrentados por Ícaro, terminam em diversão. Crescemos e nos tornamos saudosistas desse tempo em que nos divertíamos tanto com tão pouco. Mas a infância fica para trás. Cronos (o tempo) é implacável, não para por nada e a tudo devora. Restam as memórias, esses pedaços do passado. É com essas brincadeiras e passatempos comuns à infância de quem cresceu nos anos 90 que eu acredito que a história de Ícaro possa ressoar. Mas também por ser uma história para crianças e jovens, creio que a curiosidade tão característica dessa idade desperte o interesse para com aquela infância desconhecida.
- "A Queda de Ícaro" é sua primeira publicação de ficção — e já chegou vencendo um prêmio importante. Como foi tomar a decisão de tirar essa história da gaveta e enviá-la para o concurso? E o que esse reconhecimento representa para você, especialmente como autor estreante?
É uma grande honra ser agraciado com o Prêmio Líterário Sesc Criança. Especialmente por ser um prêmio de literatura infantojuvenil, é um enorme incentivo à leitura. Ler é um hábito a se desenvolver, especialmente se regado com esmero ainda na infância, pois cria raízes mais fortes. Escrevi “A queda de Ícaro” no início de 2016 – lá se vão quase dez anos! Minha esposa Caroline, sabendo que eu tinha alguns textos no fundo da gaveta, me falou sobre o concurso, e eu pensei: “Por que não?” Lancei-me à sorte, e cá estou eu.
- O título "A Queda de Ícaro" remete à mitologia. Por que escolheu esse nome? Ele tem alguma ligação simbólica com o que o personagem vive na trama?
Comecei a escrever a história de um menino que andava de bicicleta e gostava de subir em pés de goiaba. A queda era, a princípio, um artifício de enredo para capturar a atenção de quem porventura viria a ler o texto. Quem sabe por tanto ler Machado de Assis eu acreditei que inserir elementos da mitologia grega geraria uma intertextualidade interessante. Quanto às referências em si, creio que faz parte do processo de leitura buscar entendê-las de maneira orgânica. A magia da leitura é instigar-se a ler mais e mais. Por isso “A queda de Ícaro” é também um estímulo à leitura além deste livro.
- As ilustrações de Diogo Medeiros trazem um ritmo muito especial à leitura. Como foi ver sua história transformada também pelo olhar visual dele? Que impacto você acredita que as imagens têm na experiência do leitor?
“A queda de Ícaro” era um livro antes, e é completamente outro livro depois de ser ilustrado pelo Diogo. As ilustrações são também uma interpretação da história. É maravilhoso ver o texto tomando diferentes formas, ganhando os mais variados contornos. O traço usado pelo Diogo encaixou-se perfeitamente na temática do livro, lembrando alguns dos desenhos animados que marcaram os anos 90. As ilustrações servem também para instigar a imaginação de quem ler o texto, um convite a completar os espaços dentro de nossas próprias cabeças.
[Imagem da página onde começa a história]
- O que você gostaria que ficasse na memória ou no coração do jovem leitor após terminar o livro?
As histórias que mais nos marcam são aquelas que ao se fechar o livro continuam em nossas cabeças. Se eu conseguir de alguma maneira influenciar as crianças e jovens a lerem mais, terei alcançado meu objetivo.
- Você acredita que todo mundo tem um pouco de Ícaro dentro de si?
Remetendo ao personagem da mitologia grega: quem nunca sonhou em voar, não é mesmo?
- Depois dessa experiência, o que vem a seguir na sua trajetória? Pretende continuar escrevendo para o público juvenil ou tem vontade de explorar outros gêneros e faixas etárias? Já está trabalhando em novos projetos? Pode nos contar um pouco sobre o que vem por aí?
Estou sempre escrevendo, nem que seja um simples rascunho de alguma ideia abstrata. Também tenho muitas histórias escritas que ainda estão jogadas no fundo da gaveta. Quem sabe agora que tenho um livro publicado outras portas se abram. Vamos ver o que a vida me reserva.
Conversa com Diogo Medeiros - ilustrador
É ilustrador e professor de artes, formado em Artes Visuais, com pós-graduação em Arteterapia, Metodologia do Ensino e especialização em Histórias em Quadrinhos. Ilustrou os livros "João Grandão e Outras Palavras", "Maré de Mistérios" e "A Queda de Ícaro", além de criar os quadrinhos AlienNinja e participar da coletânea Super Contos da Ilha Vol II e III.
Como foi o seu primeiro contato com a história de Ícaro? O que mais te tocou ou te inspirou no texto do Bruno?
O texto do Bruno me encantou desde a primeira leitura. É um conto que foge do lugar-comum e aborda, de forma lúdica e educativa, temas importantes como medo, ansiedade, amizade e as consequências das nossas ações.
A escrita do Bruno é envolvente. A narrativa prende o leitor pelas emoções e atitudes dos personagens, instigando a curiosidade sobre como essa aventura terminará. Toda a ambientação e as referências sugeridas para a produção da obra também fazem parte da minha vida, especialmente da minha infância, e isso deu um significado ainda mais especial a este trabalho.
O livro tem um ritmo muito próprio, com tensão, mistério e afeto. Como você pensou a linguagem visual para acompanhar esse movimento da narrativa? Quais foram suas principais inspirações e técnicas usadas?
Após ler a história algumas vezes, preparei esboços iniciais para a equipe. Com a aprovação deles, dividi o roteiro em diversos quadros — um processo semelhante ao de uma história em quadrinhos, também conhecido como decupagem.
A partir das sugestões do grupo, escolhemos as melhores ideias para compor o livro. Em uma das conversas com o Bruno, ele comentou que é fã dos desenhos animados dos anos 80 e 90, especialmente os exibidos na TV Cultura, como Doug. Achei isso incrível, pois também vivi essa fase da geração Y.
Todas as ilustrações foram feitas de maneira tradicional usando lápis, papel e tinta nanquim , e, depois, as cores e texturas foram aplicadas digitalmente.
O laranja vibrante é uma cor marcante no livro. Como foi a escolha da paleta de cores e que sensações você quis transmitir com ela?
Inicialmente, o plano era colorir o livro com uma paleta inspirada nos anos 80, algo mais retrô. Penso que essas cores evocam nostalgia e uma certa leveza visual.
Durante o processo, surgiu a ideia de usar essas cores apenas nas imagens maiores, enquanto as vinhetas teriam um tom mais monocromático. A equipe, no entanto, sugeriu reduzir a paleta geral, pensando no público infantojuvenil. Achei uma boa proposta pois simplificou a produção e reforçou a estética da obra.
A escolha do laranja foi inspirada pela imagem da areia em uma ampulheta, como uma metáfora para o tempo que passa. Importante destacar que todas as artes foram desenvolvidas em cima do roteiro do Bruno com sugestões e acompanhamento dos editores, Gika e André, da Traços e Capturas.
[Imagens dos rascunhos iniciais]
A história tem um misto de mistério, descoberta e nostalgia. Como você traduziu esses sentimentos em imagem?
Assim como o Bruno, também cresci assistindo a muitos desenhos animados, lendo livros e gibis da época. Nasci em 1983, então esse universo está muito presente nas minhas referências.
Traduzir essas lembranças em imagem foi algo natural e espontâneo. Me inspirei na estética dos cartoons e adicionei pitadas de humor em algumas cenas, por meio das expressões dos personagens e dos detalhes dos cenários, para ajudar a construir o universo de A Queda de Ícaro.
Teve alguma cena ou trecho da história que foi mais desafiador ilustrar? E alguma ilustração que tenha ganhado um significado especial pra você?
Desenhar é algo que me diverte muito. O maior desafio costuma ser pensar o desenho — a ideia em si. O trabalho colaborativo com a equipe, sugerindo, ajustando e aprimorando as ilustrações, torna o processo mais orgânico e fluido.
Gostei de fazer todas as cenas, mas uma das minhas preferidas é a dos meninos brincando no quarto, com brinquedos e objetos que remetem aos anos 80 e 90. Essa cena me tocou especialmente, pelas referências pessoais e pela atmosfera nostálgica.
Como foi a troca com o autor e com a equipe editorial durante o processo de criação?
Aprendi que um livro é, de fato, feito a muitas mãos. O trabalho do ilustrador está diretamente conectado ao do autor, e ambos precisam atuar em consonância com os editores para que o resultado final seja coerente com a proposta inicial.
Já havia trabalhado com o André e a Gika, da Traços e Capturas, no livro "Maré de Mistérios", da Edina Maria Calegaro, e foi uma experiência muito positiva. Trabalhar com o Bruno, Aline, Mari e todo o pessoal do Sesc também foi muito satisfatório e agradável. Aprendi muito com todos e guardo essa parceria com carinho.
Ilustrar para o público infantojuvenil tem suas particularidades. O que mais te encanta nesse tipo de projeto?
Ilustrar para o público infantojuvenil é sempre um desafio, pois são leitores em formação — estão descobrindo seus gostos, criando suas referências e construindo sua identidade. Por isso, é importante adaptar a linguagem e os elementos visuais para gerar conexão e manter o interesse.
Além de ilustrar, também dou aulas de artes e desenho em escolas e cursos, então esse tipo de projeto me encanta justamente por me permitir sair da teoria da sala de aula e aplicar, na prática, o que ensino. É uma forma de compartilhar conhecimento de maneira lúdica e acessível.
Conte um pouco sobre sua trajetória como ilustrador e quais os planos para o futuro.
Desenho desde muito jovem. Sempre gostei de criar personagens e histórias no papel. Comecei profissionalmente ilustrando capas e encartes para álbuns de música, especialmente rap e hip hop, e, com o tempo, fui expandindo para livros, quadrinhos, cards e ilustrações para marcas e empresas.
Tenho uma HQ autoral chamada "O Alien Ninja", que publiquei em formato digital e depois imprimi por financiamento coletivo em 2016.
Atualmente, estou desenvolvendo um projeto em quadrinhos sobre a Ilha de Santa Catarina, junto a outros artistas. E meu plano para o futuro é o mesmo de sempre: continuar desenhando e produzindo arte em projetos bacanas com pessoas incríveis. Sou muito grato por poder trabalhar com o que amo.
Qual foi o maior presente que essa história te deu até agora, como artista, mas também como pessoa?
Sem dúvida, o maior presente foi o próprio livro — e as pessoas que conheci e com quem trabalhei ao longo do processo. Me senti honrado com o convite para ilustrar um conto premiado. Trabalhar com a Traços e Capturas é sempre uma experiência rica e gratificante, e ter o Sesc como parceiro torna tudo ainda mais significativo. Tenho muito respeito pelo Sistema S e admiro profundamente seu compromisso com a cultura, a educação e a qualidade de vida em todo o país.
Conversa com André Soltau e Gika Voigt - coordenação editorial
O historiador, escritor e pesquisador André Soltau e a arte-educadora, artista e produtora cultural Gika Voigt são editores da Traços & Capturas, uma editora que nasceu em 2011, em Florianópolis. Publicam livros nas áreas de patrimônio cultural, memória e literatura contemporânea nos gêneros poesia, conto, crônica, novela e romance, além de livros para público infantil e infanto-juvenil. Atuam também em projetos de fomento e difusão da literatura, da leitura e da palavra, promovendo atividades formativas, mostras e festivais.