Nas Mês do Meio Ambiente, o Sesc-SC convida à reflexão sobre uma das conexões mais obrigatórias e urgentes do nosso tempo: a relação intrínseca entre o que colocamos em nossos pratos e a sustentabilidade do planeta.
Segundo o Marco de Referência de Sistemas Alimentares e Clima, garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável exige considerar o contexto da crise climática. Afinal, os sistemas alimentares atuais, compreendendo desde o uso da terra, a produção e distribuição até o consumo e o descarte expõem um paradoxo: são causa e, ao mesmo tempo, sofrem as consequências das mudanças climáticas.
A estrutura global de produção e distribuição de alimentos gera impacto ambiental significativo. Cadeias longas de insumos e produtos prontos aumentam a pegada de carbono devido ao transporte e maior uso de embalagens. Além disso, a produção agrícola intensiva em larga escala contribui para a perda de biodiversidade e o desgaste dos recursos naturais quando não associada a práticas de manejo sustentável. Nesse contexto, a alta disponibilidade de alimentos ultraprocessados agrava o cenário, pois a fabricação em massa exige monoculturas intensivas, consome grandes volumes de água e energia, e gera uma quantidade enorme de embalagens aplicadas que sobrecarregam os sistemas de gestão de resíduos. Do ponto de vista da saúde, o consumo destas formulações é desaconselhado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, por estarem relacionados a doenças crônicas não transmissíveis, além de seus veículos de exposição humana a substâncias químicas que podem interferir na ação dos hormônios naturais do corpo (disruptores endócrinos), com potenciais impactos silenciosos a longo prazo.
Por outro lado, fortalecer cadeias curtas traz benefícios socioambientais relevantes. Aproximar produtores de consumidores reduz a emissão de gases poluentes no transporte e o uso de embalagens excessivas, e fomenta a economia local e a agricultura familiar. Esse modelo promove um comércio mais justo, fortalece os laços sociais e garante que os recursos financeiros circulem e desenvolvam a própria região. Além disso, dietas baseadas em alimentos in natura e minimamente processados, como grãos, frutas e hortaliças frescas, e pescados locais garantem mais nutrientes essenciais, respeitam a sazonalidade e a cultura regional, criando um sistema de abastecimento mais saudável, diversificado e resiliente às variações climáticas.
A interdependência entre alimentação e meio ambiente torna-se ainda mais evidente quando evidenciada sob a perspectiva dos limites planetários, as fronteiras científicas que definem o espaço de operação seguro para a humanidade. Atualmente, a forma como produzimos e consumimos alimentos é uma das principais forças propulsoras da ultrapassagem de vários desses limites críticos. A agropecuária convencional promove uma mudança no uso da terra e compromete a integridade da biosfera. O uso intensivo de fertilizantes sintéticos rompe os fluxos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo, causando a difusão de poluição de rios e oceanos, enquanto o uso de recursos hídricos para a supervisão pressionada ou o limite do uso de água doce. O desperdício de alimentos contribui para a emissão de gases do efeito estufa, acelerando as mudanças climáticas. Quando um sistema alimentar desconsidera essas fronteiras, ele desestabiliza os mecanismos de autorregulação da terra, gerando um efeito cascata que compromete a própria capacidade futura do planeta de produzir alimentos saudáveis.
Os impactos das mudanças climáticas também são evidentes na interação entre oceanos e atmosfera. O oceano atua como o principal regulador térmico do planeta, absorvendo a maior parte da calor gerada pelo efeito estufa. Contudo, essa dinâmica tem um limite que, uma vez desestabilizada, altera profundamente a interação oceano-atmosfera. O aquecimento das águas oceânicas fora do padrão modifica a evaporação e as correntes marítimas, alterando drasticamente o comportamento de chuvas, ventos e temperatura nas regiões continentais. O resultado direto se traduz em eventos extremos: secas severas e prolongadas em áreas agrícolas consolidadas, ou volumes de ocorrência torrenciais que provocam enchentes, erosão do solo e perda integral de safras. Essas anomalias climáticas prejudicam a produtividade no campo, encarecem os alimentos e ameaçam diretamente o abastecimento físico e o acesso financeiro a alimentos frescos, afetando de forma desproporcional a situação em maior vulnerabilidade socioeconômica.
Ao mesmo tempo, a absorção excessiva de dióxido de carbono pelos oceanos provoca sua acidificação, impactando diretamente a biodiversidade marinha. Esse processo causa o branqueamento e a morte dos corais (que perdem suas algas simbióticas). Embora pareçam um problema restrito à biologia marinha, os recifes de coral servem de habitat, berçário e zona de alimentação para cerca de 25% de toda a vida marinha. A manipulação desses ecossistemas pode colapsar os estoques de peixes em todo o mundo. Para o Brasil, com vasta costa litorânea, isso representa uma ameaça direta à soberania alimentar.
Os sistemas ambientais globais influenciam diretamente os limites planetários, tornando nossa escolha alimentar diária e as políticas de produção, abastecimento e consumo uma das maiores ferramentas para o desenvolvimento sustentável. Cuidar da saúde humana, portanto, tornou-se indissociável de cuidar da saúde do planeta. Ao criar a regra de ouro do Guia Alimentar, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados e evitando os ultraprocessados, tem-se uma oportunidade de valorizar a agricultura familiar, apoiar a transição agroecológica e atuar na mitigação e adaptação às mudanças climáticas, e no fortalecimento da segurança alimentar e nutricional.
Dicas práticas para começar hoje: ·
- Faça dos alimentos in natura e minimamente processados a base da alimentação;
- Prefira o consumo local e sazonal;
- Conhecer e valorizar produtores agroecológicos;
- Participar e apoiar iniciativas de agricultura urbana e periurbana;
- Reduz o desperdício de alimentos;
- Compartilhe a cultura alimentar local.
Letícia Zago
Nutricionista CRN10 0835
Especialista em Saúde Coletiva (ASBRAN), Mestranda em Clima e Ambiente (IFSC)
Coordenadora da rede de Bancos de Alimentos do Sesc-SC (Sesc Mesa Brasil)
Sobre o Sesc-SC
O Serviço Social do Comércio de Santa Catarina (Sesc-SC) é uma entidade privada, sem fins lucrativos, que integra o Sistema Fecomércio, Sesc e Senac SC, sob a presidência do empresário Hélio Dagnoni. Desde 1946, o Sesc transforma para melhor a vida de milhares de pessoas, se destacando pelo caráter social e atuação em todo o país.
O conjunto de iniciativas ao longo destes 80 anos representa o efetivo empenho dos empresários do comércio de bens, serviços e turismo em prol da missão da Instituição de: “promover ações socioeducativas que contribuam para o bem-estar social e a qualidade de vida dos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, de seus familiares e da comunidade, para uma sociedade justa e democrática”. Entre as principais atribuições do Sesc estão o planejamento e a execução de ações marcadas pela excelência nas áreas de Educação, Saúde, Cultura, Lazer e Assistência, com vasta oferta de eventos e serviços.
A Instituição está presente em todas as regiões do estado, com 65 pontos de atendimento em 37 municípios. São 33 unidades operacionais, dez unidades do Sesc Comunidade, três meios de hospedagem, um museu, um centro cultural e seis unidades móveis, que levam serviços gratuitos a outras localidades. Além disso, conta com redes de escolas, restaurantes, clínicas, teatros, bibliotecas, academias, entre outros espaços onde desenvolve suas ações.
Educação Infantil, Ensino Fundamental, Contraturno Escolar, Educação de Jovens e Adultos (EJA), atividades de saúde preventiva, de incentivo à prática de atividades físicas e esporte, Odontologia, Nutrição, Cinema, Teatro, Música, Artes Visuais, Dança, Desenvolvimento Comunitário, Trabalho Social com Pessoas Idosas (TSPI), Trabalho Social com Grupos (TSG), compõem o amplo leque de atividades que o Sesc oferece aos trabalhadores do comércio de bens, serviços, turismo, seus familiares e à comunidade em geral. São ações que favorecem crianças, jovens, adultos e idosos e provocam reais transformações em suas vidas.
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