O Sesc Tijucas deu início, neste mês de julho, aos trabalhos de campo do projeto Sesc Raízes: Territórios de Memória e Patrimônio, iniciativa que produzirá um inventário das referências culturais da região do Vale do Rio Tijucas. O projeto tem como objetivo desenvolver ações de formação, valorização, reconhecimento e preservação das matrizes culturais do território, por meio de um processo participativo junto às pessoas e comunidades detentoras de saberes e conhecimentos tradicionais.
A proposta busca estabelecer um diálogo profundo com a memória, os legados e as identidades presentes na região, promovendo o respeito às diversidades socioculturais e fortalecendo a preservação do patrimônio cultural por meio da escuta, da documentação e da participação das comunidades.
O primeiro entrevistado do projeto foi Leomir Pedro da Silva, conhecido como Professor Didi, artesão, produtor cultural e importante guardião da memória da presença da população negra na cultura popular. Descendente de uma família de tradicionais praticantes de manifestações como o boi de mamão, o maculelê e o cacumbi, Didi dedica-se desde a juventude à preservação e transmissão dessas tradições para crianças e adultos do bairro Joaia, em Tijucas.
Ao receber a equipe do projeto em sua residência, Didi destacou a importância da iniciativa para o reconhecimento da cultura popular: "É muito gratificante receber os pesquisadores e o Sesc na minha casa. É recompensador ser reconhecido, não tem valor que pague. Que esse projeto possa nos ajudar na luta para o reconhecimento dessa cultura tão tradicional, do registro do nosso saber, que foi repassado de geração para geração", destacou.
Além da entrevista com Professor Didi, esta primeira etapa dos trabalhos contemplou visitas a diferentes referências culturais do território. A equipe realizou registros sobre a presença dos povos originários na aldeia Guarani Tekoá Vy'a, em Major Gercino; documentou o trabalho do mestre entalhador Roberto Brasseiro Canto, em São João Batista; e conheceu importantes iniciativas culturais da região, como o Pontão de Cultura Casa Ação Cultural e a Associação Musical União Tijuquense, em Tijucas, além do Ponto de Cultura Engenho de Farinha do Vô Manuel e o Engenho de Farinha de Dona Laudelina, ambos em Canelinha.
Para a historiadora Dra. Daniela Pistorello, que coordena a pesquisa, o trabalho com as comunidades revela saberes e expressões culturais de notável diversidade que, quando documentados e qualificados tecnicamente, se tornam capazes de impulsionar a economia criativa, o turismo cultural e a captação de recursos públicos. “Dar visibilidade ao patrimônio é mais do que preservação: é estratégia de desenvolvimento. Ao promover o reconhecimento institucional desse acervo vivo, o Sesc contribui para posicionar a região no mapa cultural de Santa Catarina e transformar identidade em oportunidade", declarou a historiadora.
Nas próximas etapas, o inventário seguirá ampliando o mapeamento das referências culturais do território, registrando histórias, práticas, ofícios e pessoas que contribuem para a construção da identidade cultural do Vale do Rio Tijucas, promovendo o reconhecimento dos patrimônios vivos da região e fortalecendo o diálogo entre memória, comunidade e futuro.
A produtora cultural Márcia Reis Bittencourt no Ponto de Cultura Engenho de Farinha Vô Manuel, em Canelinha.
Engenho de Farinha de Dona Laudelina, em Canelinha.
Entrevista com o líder indígena Augustinho, na Aldeia Guarani Tekoá Vy'a.
Professor Didi no boi que construiu para o folguedo do Boi de Mamão.
Entrevista com Laudelina Trindade, em seu engenho de farinha, em Canelinha.
O artista e escultor Roberto Brasseiro Canto, em São João Batista.