Realizado de 19 a 21 de agosto, no Hotel Sesc Cacupé, em Florianópolis, o Congresso Sesc de Educação reuniu um público expressivo de educadores, gestores, profissionais da educação e demais interessados em discutir os desafios e as possibilidades de uma educação comprometida com a diversidade, a inclusão e o pertencimento. Com o tema “Educar para todos, reconhecer cada um: diversidade, inclusão e pertencimento como compromisso educativo”, o evento contou com palestras, mesas de debate, oficinas, atividades culturais e momentos de troca entre os participantes.
Ao longo dos três dias, os conteúdos abordaram diferentes dimensões da educação inclusiva, partindo da filosofia e dos saberes ancestrais até questões como capacitismo, autismo, saúde na infância e educação dos afetos, além de incluir muitos momentos culturais com música e apresentações artísticas.
Para Hélio Dagnoni, Presidente da Fecomércio, Sesc e Senac SC, o evento contou com os principais atores da educação. “Estamos aqui com professores, educadores e gestores fomentando a transformação na educação inclusiva. Além disso, seguimos um dos pontos principais que nos traz José Roberto Tadros, Presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, que é a busca pela humanização das pessoas na educação no Brasil para termos uma sociedade cada vez melhor”, disse.
Já para Érlei José de Araújo, Diretor Nacional de Educação, Pesquisa e Dados Sesc, o Congresso tratou de temas muito importantes para a educação nacional. “O evento dialoga com os objetivos da Rede Sesc de Educação de maneira muito intensa, qualificando profissionais para oferecer uma educação cada vez mais conectada com as necessidades de nossos alunos e contribuindo para uma educação de excelência para todo o Brasil”, afirmou.
“Tenho certeza que o legado que todos levaremos daqui é a construção de uma educação mais inclusiva. Cada um de nós faz parte desse movimento, na forma como a gente olha, escuta, fala e percebe o outro com todas as suas singularidades”, pontuou Simone Karla da Rocha Batista, Diretora Regional do Sesc-SC.
Para Renate Damian, Diretora de Programação Social do Sesc-SC, o objetivo é que tudo que foi vivido no Congresso continue reverberando. “Queremos que as trocas, os aprendizados e as novas ideias se transformem em práticas e projetos que fortaleçam ainda mais a educação”, afirmou.
A programação do dia 20 começou com a aula magna “Filosofia na Educação: Vínculos Humanos e Fortalecimento do Laço Social”, com Lúcia Helena Galvão. A professora e filósofa trouxe a reflexão sobre os vínculos humanos e a responsabilidade individual na construção da vida coletiva, relacionando filosofia, ética e educação. “É importante refletirmos sobre o lado mais profundo do ser humano, além daquilo que está a flor da pele. As diferenças superficiais se desvalorizam muito quando somos capazes de perceber as necessidades do mundo. Todo ser humano tem o potencial de ser fraterno e justo dentro do seu coração”, afirmou.
Na sequência, Kaká Werá, escritor, educador e liderança indígena, apresentou “O Poder da Escola Aldeia”. A partir dos saberes originários, abordou outras formas de compreender a educação, destacando a vida comunitária, nossa conexão com a Terra, a relação com o coletivo e o respeito às diferentes formas de existência. “A escola aldeia é uma necessidade para retomarmos a presença da comunidade no dia a dia escolar. Nós estamos desconectados das relações, das trocas e aprendizados. Precisamos resgatar o conceito de comunidade, para trabalharmos a arte de conviver para o bem viver”, disse.
O gerente nacional de Educação do Sesc, Luiz Fernando de Moraes Barros, apresentou “Incluir é ampliar o mundo: Conceitos, caminhos e o que o Sesc pode ensinar”. A palestra aproximou o debate sobre inclusão nas práticas pedagógicas, tratando da responsabilidade de construir ambientes educacionais acessíveis e de garantir a participação de todos. “Uma pedagogia sem inclusão é uma pedagogia pobre e incompleta. Então não é possível pensar em educação se ela não for inclusiva, se não for pensada para todos”, disse.
À tarde, Karla Garcia Luiz e Mariana Rosa participaram da mesa “Provocações para uma educação anticapacitista”. O debate trouxe a perspectiva de quem vivencia e pesquisa a deficiência, questionando práticas capacitistas e discutindo caminhos para uma educação que reconheça as diferenças desde a infância. “Quando o professor percebe que cada estudante é único, todas as estratégias gerais caem por terra. E aí ele se dá conta que a diversidade é a sua real riqueza em sala de aula”, disse Mariana. “O nome de uma patologia, de um transtorno ou um CID é apenas uma parte de uma pessoa, mas não o seu todo”, completou Karla. “Precisamos mudar a escola, para que não mudem de escola”, afirmaram.
Em seguida, Lucas Pontes de Andrade e Willian Chimura conduziram a mesa “Desconstruindo o autismo: um olhar autista sobre comportamento, educação e diversidade”. A discussão abordou o autismo a partir de uma perspectiva que ultrapassa diagnósticos e comportamentos, trazendo elementos para compreender a diversidade das experiências autistas e os desafios de inclusão no ensino regular. “Precisamos ter uma visão sistêmica da inclusão. A inclusão é a interação do sujeito com o meio, e isso não apenas com alunos, mas com professores, estímulos e espaços. Tudo precisa ser levado em consideração”, disse Willian. “A inclusão ter que ser vista como um dever e não como um favor. Não é algo feito a mais e sim uma necessidade que permita que todos se sintam acolhidos”, finalizou Lucas.
Encerrando a programação do dia, o pediatra e sanitarista Daniel Becker apresentou “Reencontro com as infâncias: Promovendo saúde e bem-estar de crianças e famílias”. A palestra tratou do desenvolvimento integral de crianças e adolescentes e da importância de ambientes que favoreçam saúde, segurança, convivência e bem-estar. “Resgatar a infância significa afastar as crianças de celulares e redes sociais. E isso passa pelos adultos também que precisam deixar o celular de lado. Ao se relacionarem mais e estimularem as leituras, brincadeiras e conversas com pais e amigos, as crianças ganham em autoestima, desenvolvimento emocional e saúde física e mental. E os adultos ganham em alegria e capacidade de educar, criando filhos mais críticos aos conteúdos nocivos que recebem”, afirma.
O último dia do congresso ampliou a discussão sobre relações e cuidado. Pela manhã, aconteceu o lançamento do livro “Afetos: Uma Cultura de Inclusão Escolar”, com participação de Jaqueline Bulin Vieira, Ricardo Lugon, Bruna Martins e Maurita Biffi da Rosa, que discutiram o papel das relações de cuidado, acolhimento e reconhecimento na construção de ambientes escolares inclusivos. A programação também contou com oficinas simultâneas voltadas à inclusão, acessibilidade, arte, desenho universal de aprendizagem, recursos pedagógicos e outras práticas.
O encerramento da programação de palestras ficou por conta de Gabriel Chalita, com “Educação dos Afetos: Um olhar filosófico sobre a arte do encontro”. A apresentação retomou a importância do afeto, da escuta e do diálogo nas relações educativas, colocando os vínculos como parte fundamental do processo de educar. “Amar não é alguém dizer que te ama, e sim alguém que se importa com você, lida junto com a sua dor, ouvi a sua história. Isso é afeto, porque isso nos afeta. Segundo o filósofo Espinosa, não são as proibições de paixões tristes que trazem alegria a vida, mas sim as conquistas das paixões alegres”, conta Chalita.
Além da programação formativa, o congresso contou com apresentações artísticas, atividades de integração e o Diálogo de Saberes, momento dedicado à partilha de experiências e à discussão sobre os caminhos possíveis para a educação.
O que ficou do congresso
A participação do público e o envolvimento nas diferentes atividades marcaram os três dias de programação. Mais do que a quantidade de participantes, a avaliação percebida ao longo do evento destacou a experiência como um todo. Entre as expressões mais recorrentes utilizadas pelo público para definir o congresso estiveram “cuidado com cada detalhe”, “qualidade dos palestrantes” e “fazer a diferença na educação com inclusão”.
“Assistimos profissionais que trazem grande representatividade e que nos fizeram refletir bastante sobre as nossas práticas pedagógicas no dia a dia, tendo um olhar mais amplo para as ações educativas que contemplem todos os estudantes”, afirmou a professora Sissa Santos.
“Uma equipe multidisciplinar trabalhando em prol da educação, com temas que me tocaram muito. Principalmente a ideia de conectar-se, de estar com o outro”, disse a psicóloga Raquel Carmo.
Essas percepções sintetizam a proposta do encontro: reunir diferentes conhecimentos e experiências para discutir inclusão de forma concreta, aproximando reflexão e prática e reforçando que reconhecer cada pessoa também implica rever espaços, relações e formas de educar.
Com o encerramento do Congresso Sesc de Educação, fica o desafio de levar essas discussões para além do evento e transformá-las em práticas presentes no cotidiano das escolas e dos demais espaços educativos.
Confira algumas fotos do Congresso: