Ainda é possível visitar os vestígios dos três acampamentos que ele montou: o primeiro, perto da foz do rio, outro, numa plataforma rochosa, mais para noroeste, que oferece uma bela vista da ilha, e o terceiro, no vale interior. Ali Crusoé plantou cevada, milho e arroz, que agora suplementam as espécies nativas da ilha: pinheiros espinhentos, pau-ferro, tabaco, aloés, cana-de-açucar, melões, uvas, cítricos e cacaueiros. Não há animais selvagens, exceto uma espécie de gato selvagem (que cruzou com uma espécie doméstica levada por Crusoé) e cabras.
Alberto Manguel. Dicionário de Lugares Imaginários.
Náufrago, isolado numa ilha por vinte e tantos anos, Robinson faz o perfil do ingênuo que retorna ao mundo primitivo e sobrevive re-inventando técnicas e artifícios. Precursor de um espírito pratico e positivo, e de um ideal de desenvolvimento e evolução que sugere, em última análise, domínio sobre a natureza (a tecnologia sendo o instrumento para impor ao caos - leia-se natureza, mundo primitivo - um sentido racional). No entanto, em outra chave de leitura, o historiador da arte Hubert Damish entende o episódio da ilha menos como a história de um homem que volta ao mundo natural, do que o de uma economia baseada na falta de todos os sentimentos e desejos precisos ao homem (inclui-se aqui a esfera das artes), uma vez que estes podem desmantelar o aparato regulador da cultura ocidental¹. Em acordo com esta hipótese, os trabalhos apresentados neste núcleo rumam à ilha de Robinson Crusoé para promover uma articulação diversa entre homem, natureza, desejo, arte, técnica e sobrevivência.
Juliano Jahn, por exemplo, trabalha a tecelagem sem qualquer orientação funcional. Recupera refugos de madeira em fábricas de móveis para produzir cestos que serão inseridos na mata. Uma vez na natureza, esses objetos não conseguem recuperar sua instância primeira de matéria orgânica e acabampor suscitar uma presença estranha, uma espécie de segunda natureza - um aspecto alienígena, que aparece também nas pinturas de paisagem sobre outdoor, realizadas por Maria Araújo. A idéia de uma segunda natureza implica no entendimento de que já não há a oposição entre artificial e natural, uma vez que, segundo Damish, não é mais possível recuperar o natural. Em Fóssil, de Lia Chaia, o contorno de um vegetal descansa sobre algo que vai de uma rocha a uma placa de concreto (o concreto das cidades não sendo mais do que água, areia e pedra).
Ainda assim, Fóssil possibilita uma espécie de pausa, uma vez que registra também uma segunda dimensão temporal, paralela ao fluxo contínuo e aparentemente inexorável do cotidiano urbano. Os trabalhos da série captação de levezas do mundo, de Fernando Weber, operam nessa pausa. Seus desenhos sublinham uma fatura, techné, engendrada pelo desejo.
1 Cf. DAMISH, Hubert. Robinsonnades II: The Real Robinson. In: OCTOBER - Arts Theory Criticism Politics. Mit press, Cambridge, 1998, n. 85.




