Essa biblioteca, que alguns chamam de universo, constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, com cinco longas prateleiras, cobrem todos os lados, menos dois; sua altura, do chão ao teto, quase não excede a de uma estante normal. Um dos lados livres conduz a um saguão estreito, que desemboca em outra galeria, idêntica à anterior.
Jorge Luís Borges. A Biblioteca de Babel.
Uma vez dentro da Biblioteca nos encontramos em um engendro de dobras: espaços que se repetem, corredores de livros que se alternam e alteram (não há na biblioteca dois livros idênticos), combinações que se fazem e refazem continuamente. Uma arquitetura da dobra que é barroca por excelência: espelhos que são labirintos que são jardins que são rasgos e rugas, espirais. Seja na biblioteca de babel, seja num edifício barroco, este espaço dobrado foge ao esclarecimento - a natureza do espaço dobrado recusa o enquadramento. O paradoxo é que a Biblioteca de Babel é habitada por aqueles que se entranham na busca da razão do universo.
Os trabalhos de Loiri Ficagna são representativos desse paradoxo. Apropriando-se da biblioteca da história da arte, a artista intervém em reproduções de obras de arte amplamente divulgadas em coleções e encartes de revistas e jornais, que ela ironicamente aborda como obras de arte já consagradas. Nessas colagens ou intervenções, a noção da obra confronta-se com a idéia de dobra. Ao construir sobre tais obras uma espécie de biografia maluca (com as únicas fotos de família que lhe restam), a artista acaba obscurecendo o cânone historiográfico que toma a obra como evidência de um contexto. Uma estratégia de embaralhamento, que está presente também nos postais de Marcela S. Fernandes.
O deslocamento da obra para a dobra pode ser percebido também em Provérbios, de Rosana Ricalde. Neste a artista incorpora problemas da pintura impressionista, referentes à teoria das cores, da saturação e da luz, que, vale lembrar, contribuíram para a elaboração da autocrítica da pintura modernista, orientada em prol de uma relação de contemplação para com a obra. Ao misturar diferentes provérbios em cores e línguas diferentes, a artista gera uma espécie de miopia, que leva o espectador a atuar enquanto autor, manipulando uma serie de artifícios visuais tais como filtros de cores. A reestruturação das palavras e das cores possibilita a leitura desses provérbios, ditos que se disseminam pela tradição oral, como falas que se desdobram.
A estratégia da dobra aparece aí também como uma força que não cessa de produzir singularidades diversas. O espaço da dobra é, portanto, uma espécie de modulação. A modulação significa a superação do confinamento, do espaço disciplinador que procura configurar um padrão, um perfil, estabelecer um molde. Escreve Deleuze que a modulação é como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de ponto a ponto¹. Nesse sentido, os desenhos de Diego Rayck articulam uma espécie de modulação no próprio espaço cerrado da disciplina - túneis e buracos são transgressores na medida em que habitam o espaço da lei. Bastantes relacionados com o próprio mecanismo utilizado por Borges ao descrever a Biblioteca - quanto mais realistas e concretos, ainda mais inoperante parecem ser.
1 DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990. Parte V: Política. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. SP: Editora 34, 1992. p.221




